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sábado, 10 de julho de 2010

Da Morte e da Morte



Nunca se chegou a perceber muito bem por quem é que ele, afinal, se tinha apaixonado. Tinham ambas o mesmo nome, e se com uma o magnetismo físico era óbvio, com a outra não se negaria um entendimento profundo com nuances de, no mínimo, admiração e, no máximo, endeusamento.

Ficou igualmente por saber para sempre se morreu ou sobreviveu ao episódio da garrafa de ar, assim como ficará eternamente na penumbra do anonimato a dona do pé que pisava a alimentação de oxigénio.

Tinha tanto para dar, o Bráulio. Cativara-nos desde o primeiro instante: o sobretudo encardido de odor a tabaco, a barba de três dias, as rugas nos olhos que evocavam olhares semi-cerrados a metade do tempo, a parcimónia das palavras que imaginámos de imediato inversamente proporcional ao fluxo do pensamento. Um homem mergulhado na luta contra o crime e na auto-defesa frente à impiedade da paixão.

Vimo-lo apenas duas vezes. Duas vezes inesquecíveis. Sentado a um balcão onde ouvia conversas. Depois disso, o A. distraiu-se numa das suas demandas pelo sentido da vida ou pelo maço de tabaco e, quando deu por ela, tinham-lhe roubado o blogue.


Com um beijo profundo de carinho e admiração pelo A., que lida agora pela segunda e mais ímpia vez com a morte.


sexta-feira, 9 de julho de 2010

"Ups, caiu-me um braço."

...

Repórter - Como foi que aconteceu?

Senhor - Então... estava a cortar a lenha e acelerei com o pé, não devia. Como estava de pé, po's claro, só tive tempo de pensar "Lá se vai a minha mão".

Repórter - E como é que o senhor se sentiu quando viu a sua mão separada do corpo?

Senhor - Senti-me... senti-me bem, menina. Um bocado triste, não é... mas senti-me bem, estive sempre consciente.

Jornal da Noite, TVI, 09/07/2010

Vir sapit qui pauca loquitur.

domingo, 20 de junho de 2010

Palavras do Presidente da República Portug... perdão, do Empregado de Mesa de Lanzarote

"Soy un simple camarero, ¿qué puedo yo decir sobre Saramago? (…) Además del cariño de su presencia y de la falta que me hará a mí Dom José… bueno, me parece que nos hará falta a todos. Es que a mí me hizo pensar muchas veces, así que creo que igual les haría a muchos otros seres humanos."

in Jornal da Noite, SIC, 20/06/2010, 20h18


Poucas calamidades públicas me deixaram mais triste e nenhum PR me deixou tão envergonhada.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A demanda - parte II

O dia chegava ao fim e a carne, mais volta menos volta, mais tombo menos tombo, estava entregue. Entrou no talho e foi à pia esfregar os braços latejantes com sabão azul e aprumar o cabelo com um brilhozito de água.

"- Vamos lá ver onde se há-de pôr a menina a dormir. Assim sem contar não temos o quarto à feição, mas por hoje não fica mal."

"- Obrigada, Senhora, mas vou dormir a casa. Até amanhã."

Saiu.
Passados minutos voltou, para encontrar a Senhora no mesmo sítio a olhar através do balcão de mármore branco raiado e das contas do dia.

"- Esqueceu-me a sêmea."

Muniu-se da trouxa e foi-se. 12 quilómetros em 2 pernas de quase 14, 3 horas 2 vezes ao dia. E noves fora nada.

domingo, 13 de junho de 2010

A demanda


A mãe tinha fugido do Brasil por amor. Ou melhor, por falta dele para com o sujeito de 60 anos com quem a queriam casar. Eram dez lá em casa, mais meninas que meninos, e todos dispensaram o exame da 4ª classe porque cantavam na ponta da língua as províncias, suas capitais e rios de Portugal.

No tempo em que a tragédia era igualmente dolorosa e contrariamente natural, o pai e os filhos enterraram a mãe sem cabelos brancos. Três anos mais tarde, os filhos sozinhos enterraram o pai. Não há memórias que atestem a causa da morte: amor, cirrose, ambos, dá no mesmo. Os pequenos seguiram os seus caminhos, cada um num mester. Era o que havia a fazer. Era o que se sabia fazer.

Ela tinha andado a aprendiz de chapeleira na cidade. Tinha jeito com as mãos e genica para o que viesse, faltava-lhe era a paciência para acatar ordens de velhas mestras rezingonas, de tal modo que um dia atirou com o avental, disse "Você não manda em mim, que não é minha mãe" e do alto dos seus treze anos pôs-se a caminho de casa de uma tia.

Como nessa época ainda não se sabia do desemprego, que remédio teve senão arranjar trabalho logo a seguir. "Precisa-se ajudante para distribuição de carnes verdes", dizia no jornal. Eram quatro da manhã quando acordou para se apresentar no emprego, não porque tivesse insónias ou nervoso miudinho, antes porque de São Gemil a Fernandes Tomás são 12 quilómetros, isto é, 3 horas a andar ligeirinho com pernas de quase 14. Já lá estava quando a Senhora chegou para abrir a porta do estabelecimento.

"- Bom dia, vim por causa do anúncio."
"- Bom dia, filha, podes voltar pelo mesmo caminho que isto não é trabalho para ti."
"- E porquê?"
"- Homessa, porque a carne pesa mais que a tua."
"- E eu não sei disso?"

A Senhora apartou o sobrolho franzido da fechadura que chocalhava todos os dias antes de se permitir abrir e deteve-se uns segundos naquela figura tísica de narizito empinado e cabelos como um tição.

"- Como te chamas?"
"- Emília."