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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Ela é tão boa

de enganar.

Tenrinha, tenrinha. Como eu gosto.

domingo, 5 de setembro de 2010

Lapidação

Não há crueldade remotamente semelhante à do meu próprio sangue.

domingo, 22 de agosto de 2010

This is a Story of Girl Meets Girl - part I

Winter was clearly shoving its way through the village. Inside, it was as moist as usual. Yet, something would turn out to be different that day.
She made her way through the room, her reflections tailing her like cards on a poker shuffler. Tights, leotard, legwarmers, t-shirt, ready to join the noisy herd already swarming the pale beige room.
"Nini?", someone said. And there she was, standing tall and lost in her big white hairband.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Noite de Sushi e Outras Coisas Cruas


P - Então vamos?
W - Vamos lá!
P - Está combinado, então.
W - Combinadíssimo.
P - E quem vai?
W - Ora... A, B e C não podem. O D... a mulher não o deixa.
P - Ainda essa merda?
W - Ainda. Imagina.
P - Achas o E boa ideia?
W - É complicado, separou-se agora da F e as coisas ainda estão muito...
P - Frescas?
W - Não, pá, não tem dinheiro. Não pões mesmo a hipótese de ir com a G?
P - Vai-te foder.
W - É justo. E então, vamos só os dois, é?
P - ... Acho que não.
W - Seria muito estranho.
P - Então não vamos, não é?
W - Parece que não.
P - Combinadíssimo.

sábado, 3 de julho de 2010

Us Listening to Her


Cruzaram-se numa passagem estreita, quase não deu para ignorar. Ela continuou a andar mas abrandou o passo e espreitou por cima do ombro. Lá estava ele, tal e qual como ela se lembrava. Em segundos, fez as contas ao embaraço possível, à frustração provável do reencontro... e parou. Girou sobre os calcanhares e tocou-lhe ao de leve. Macio como sempre, morno àquela hora da tarde.

Abriu-se. Há quanto tempo já não se encontravam, porquê esta parvoíce de adiar sempre para "um dia destes"? Ah, assim é que são bons os encontros, a surpresa, assim sem contar. Sim, claro, parece que era mesmo para acontecer. Respirou fundo.


Na cozinha, estremecemos ao ouvir aquele inconfundível ranger. Não podia ser, não pensáramos que voltasse a acontecer.

Mas aconteceu. E a casa encheu-se de Lizst.

* Degas, "Manet Listening to His Wife Play the Piano"

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A demanda - parte II

O dia chegava ao fim e a carne, mais volta menos volta, mais tombo menos tombo, estava entregue. Entrou no talho e foi à pia esfregar os braços latejantes com sabão azul e aprumar o cabelo com um brilhozito de água.

"- Vamos lá ver onde se há-de pôr a menina a dormir. Assim sem contar não temos o quarto à feição, mas por hoje não fica mal."

"- Obrigada, Senhora, mas vou dormir a casa. Até amanhã."

Saiu.
Passados minutos voltou, para encontrar a Senhora no mesmo sítio a olhar através do balcão de mármore branco raiado e das contas do dia.

"- Esqueceu-me a sêmea."

Muniu-se da trouxa e foi-se. 12 quilómetros em 2 pernas de quase 14, 3 horas 2 vezes ao dia. E noves fora nada.

domingo, 13 de junho de 2010

A demanda


A mãe tinha fugido do Brasil por amor. Ou melhor, por falta dele para com o sujeito de 60 anos com quem a queriam casar. Eram dez lá em casa, mais meninas que meninos, e todos dispensaram o exame da 4ª classe porque cantavam na ponta da língua as províncias, suas capitais e rios de Portugal.

No tempo em que a tragédia era igualmente dolorosa e contrariamente natural, o pai e os filhos enterraram a mãe sem cabelos brancos. Três anos mais tarde, os filhos sozinhos enterraram o pai. Não há memórias que atestem a causa da morte: amor, cirrose, ambos, dá no mesmo. Os pequenos seguiram os seus caminhos, cada um num mester. Era o que havia a fazer. Era o que se sabia fazer.

Ela tinha andado a aprendiz de chapeleira na cidade. Tinha jeito com as mãos e genica para o que viesse, faltava-lhe era a paciência para acatar ordens de velhas mestras rezingonas, de tal modo que um dia atirou com o avental, disse "Você não manda em mim, que não é minha mãe" e do alto dos seus treze anos pôs-se a caminho de casa de uma tia.

Como nessa época ainda não se sabia do desemprego, que remédio teve senão arranjar trabalho logo a seguir. "Precisa-se ajudante para distribuição de carnes verdes", dizia no jornal. Eram quatro da manhã quando acordou para se apresentar no emprego, não porque tivesse insónias ou nervoso miudinho, antes porque de São Gemil a Fernandes Tomás são 12 quilómetros, isto é, 3 horas a andar ligeirinho com pernas de quase 14. Já lá estava quando a Senhora chegou para abrir a porta do estabelecimento.

"- Bom dia, vim por causa do anúncio."
"- Bom dia, filha, podes voltar pelo mesmo caminho que isto não é trabalho para ti."
"- E porquê?"
"- Homessa, porque a carne pesa mais que a tua."
"- E eu não sei disso?"

A Senhora apartou o sobrolho franzido da fechadura que chocalhava todos os dias antes de se permitir abrir e deteve-se uns segundos naquela figura tísica de narizito empinado e cabelos como um tição.

"- Como te chamas?"
"- Emília."

terça-feira, 18 de maio de 2010

Ponto 1

Dedicado a todos aqueles que avidamente procuravam o ponto em falta.

domingo, 25 de abril de 2010

Acção gera acção



Este poster estava pendurado na parede do escritório do meu avô.
O meu avô recebia secreta e receosamente o Jornal Vermelho.
O meu pai era membro do MFA.
Eu faço postagens vulgares sobre o Dia da Liberdade.


A cada hora que vivo cresce a tese de que os excelsos exemplos nos tornam perigosamente conscientes da incapacidade de recriar proezas. Aqui que ninguém nos ouve, digo que às vezes gostava de ser filha de uma geração um nadinha mais rasca.

terça-feira, 20 de abril de 2010

B&P

Ocorreu-me que nunca cheguei a saber o que aconteceu à Bonnie e ao Clyde, no fim de contas.

Se calhar é porque não interessa - serão para sempre Bonnie&Clyde.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Membros inferiores honoris causa


Ao som de Black Eyed Peas e Beyoncé tudo parece parvamente alegre. É uma óptima banda sonora para estender roupa e consegue até sobrepor-se ao barulho opressor do aspirador. É de facto tão saltitante e inconsequente que uma gaja às vezes pensa que a quer adoptar como BSO para a vida.
Até que, de uma das pilhas de tralha de papel e plástico que nascem, crescem e se reproduzem na minha secretária, cai ao chão a capa do "Strangeways, Here We Come", a provar-me que a leveza do ser é realmente insustentável. E assim sobe exponencialmente a qualidade do som deste fim de manhã... E instala-se a verdade.
Passa-me na testa uma película a sépia que não via por estas bandas há largos meses. Eu, sentada na mesma cama, noutro quarto. Os meus irmãos, de pé. Três nós em três gargantas.
Adoro os meus irmãos tanto como as minhas pernas. Obviamente não pela elegância das linhas, mas porque me permitem avançar.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Parabéns

O primeiro nome da minha avó rima com o segundo. O terceiro nome da minha avó rima com o quarto e último. Isto faz da minha avó uma quadra com rima emparelhada de 87 anos.
Quando for grande quero ser como ela: soante e inesquecível.

terça-feira, 9 de março de 2010

Orgulho de não-mãe

Estou profundamente orgulhosa de mim. Nunca esperei sinceramente que este blog (blogue?) tivesse mais do que um conjunto maricas de cores e uma postagem (post?). Eis senão quando, surpresa, já tem quatro delas e acabou de se tornar público. Sim, senhoras e senhores, este T1 virtual acabou de se tornal internacionalmente conhecido. As we speak, está seguramente a ser lido por uns ávidos, e por sinal muito bonitos, olhos verdes residentes na capital londrina.
Mudaram-se para lá há dois anos e... fazem-me muita falta. Sem eles não vejo as tragicomédias dos 29 a 3D.