lembrem-me da ânsia de acordar para ver se a maré estava vaza e apanhar as moedas que davam à costa (sim, moedas que davam à costa, acreditei durante anos que de facto davam à costa e nunca desconfiei que o meu pai se levantasse uma hora mais cedo e as fosse lá plantar), da energia renovada das 8h da noite na praia do Castelo, quando o mar se punha bom para apanhar polvos à mão e sentir-lhes os tentáculos pegajosos que se nos enrolavam nos braços, do regresso a casa e do conforto de tantos e tantos dias pela frente para acordar cedo e moldar pasta de papel, para esperar que o pai chegasse, limpasse o pó à agulha e fizesse soar Ravel, Fausto ou Brel e para perceber aos pouquinhos que gostava de ter público enquanto dançava.
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sexta-feira, 6 de agosto de 2010
terça-feira, 22 de junho de 2010
Wish (to Have Wished) Bucket
Há dois punhados de anos atrás desejei ter desejado ir ao baile de finalistas, há um punhado desejei ter desejado ter filhos, hoje desejava ter desejado festas de anos e daqui a outro punhado desejarei ter ido amanhã ao São João.
La la la... common people... la la la...
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quarta-feira, 19 de maio de 2010
sexta-feira, 14 de maio de 2010
PRELÚDIO
Sinto que devo contrariar a tendência egoísta de escrever apenas em dias de chuva.
Ou isso ou tenho necessidade de me adaptar ao meio, pertencer de facto, "Ibiza, as piscinas, os amigos..." (Telma e Margarida: perdemos o rasto ao autor desta pérola, não foi? Pecha bibliográfica, argh.)
Ou isso ou tenho necessidade de me adaptar ao meio, pertencer de facto, "Ibiza, as piscinas, os amigos..." (Telma e Margarida: perdemos o rasto ao autor desta pérola, não foi? Pecha bibliográfica, argh.)
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terça-feira, 13 de abril de 2010
Membros inferiores honoris causa

Ao som de Black Eyed Peas e Beyoncé tudo parece parvamente alegre. É uma óptima banda sonora para estender roupa e consegue até sobrepor-se ao barulho opressor do aspirador. É de facto tão saltitante e inconsequente que uma gaja às vezes pensa que a quer adoptar como BSO para a vida.
Até que, de uma das pilhas de tralha de papel e plástico que nascem, crescem e se reproduzem na minha secretária, cai ao chão a capa do "Strangeways, Here We Come", a provar-me que a leveza do ser é realmente insustentável. E assim sobe exponencialmente a qualidade do som deste fim de manhã... E instala-se a verdade.
Passa-me na testa uma película a sépia que não via por estas bandas há largos meses. Eu, sentada na mesma cama, noutro quarto. Os meus irmãos, de pé. Três nós em três gargantas.
Adoro os meus irmãos tanto como as minhas pernas. Obviamente não pela elegância das linhas, mas porque me permitem avançar.
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sábado, 20 de março de 2010
Sitting on love
Por contraditório que pareça, passo a esmagadora maioria do meu tempo livre a trabalhar. Depois de ter atulhado a minha secretária de papelada até ao tecto, "mudei-me" sorrateiramente para a mesa da sala. Tal significa que 1) não posso dar jantares cá em casa, 2) passo todo o tempo sentada numa cadeira redonda (o que me impede de dizer que "passo tanto tempo sentada que já tenho o rabo quadrado").
Esta cadeira redonda teve a sua primeira encarnação na Noruega, na década de 1930. Alguém a salvou até ao século XXI e outro alguém a restaurou impecavelmente e pôs à venda numa loja especializada em vintage, retro, art deco... Todos esses fancy names para as outrora chamadas Antiguidades. Como o fancy é caro, eu namorei-a durante muito tempo e depois troquei-a sensatamente por uma série de electrodomésticos brancos. Mas como o verdadeiro amor nunca se esquece, mais tarde voltei a visitá-la e apresentei-lhe o meu pai. Ora, ela caiu-lhe no goto e ele resolveu apoiar a nossa relação.
Como é muito trabalhador, o meu pai não tem muito dinheiro. Contudo, tem um olho fantástico para cores e formas, absorve-as como se de uma palavra se tratasse - um conjunto de elementos (letras/sons) aleatórios e variados, perfeitamente ordenado para produzir um significado uno, um inequivocável sentido. Invejo-lhe essa capacidade, não me conformo com não a ter herdado. Apartes à parte, o meu pai tratou de arranjar todas as letras e sons necessários para reproduzir cadeira. Duas viagens a Paços de Ferreira mais tarde, a segunda encarnação das oito norueguesas habitava já a minha casa na baixa portuense.
Se isto não é o amor, então o que é?
Um ano mais tarde, sete norueguesas mudaram-se para um 5ºEsqTras. Uma ficou para trás, sob pretexto de... já não me lembro... e com a promessa de ser devolvida em breve. Hoje pode ser encontrada no mesmo lugar, riscada até ao tutano.
Se isso não é desamor, então o que é?
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sábado, 13 de março de 2010
A ternura dos 80

De quando em vez, a televisão por cabo tem um acesso de sobriedade e transmite bons filmes.
Mudando de assunto, neste momento está a dar um clássico da minha juventude que moldou os sonhos de muitas adolescentes de poupa, minhas contemporâneas: o Flashdance. Além da extraordinária (leia-se ambivalentemente, se se quiser) banda sonora, a candura do filme nota-se de imediato no tom das vozes - os diálogos são quase murmúrios, parcos em palavras polissilábicas e abundantes em suspiros. Os figurinos terão sido seguramente guardados em dois cabides, um para os macacões e blusões de cabedal, outro para os bodies em fio dental e acessórios de uniforme policial com brilhantes. O hair design também não é complexo: os homens usam-no relativamente curto, ondulado e brilhante, as boas da fita usam-no volumosamente frisado com repas lisas e as más da fita liso e pingado. Creio veementemente que o grosso do orçamento terá ido para o gelo seco.
Mas a verdadeira candura do filme está noutra dimensão. Falamos de um argumento que pressupõe que uma mulher de vinte e poucos pode aceder em igualdade de oportunidades a um emprego tipicamente masculino, na indústria metalo-mecânica, e ainda acumular outro à noite, por amor à arte. Falamos de um argumento em que um patrão divorciado paga uma lagosta à funcionária por quem desinteressadamente se apaixonou. E falamos ainda de um argumento em que cinco piruetas seguidas, com uma recepção perfeita em quarta posição, executadas por uma stripper sem formação clássica não conseguem impressionar o júri bafiento de uma reputada Academia de Dança. Já uns pulinhos a ritmo acelerado acompanhados de um indicador apontado à vez à cara dos mestres logram o entusiasmo geral e a admissão na escola.
Deliciosamente cândidos, os anos 80. Que saudades!
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