terça-feira, 7 de abril de 2015

As visitas

Sentamo-nos  juntas entre sonhos, dou-te um abraço e ainda estás quente, eles chegam e tu vais-te lestinha para não me embaraçares, eles explicam-me que tu já foste, que é necessário que eu durma, eles vão e tu voltas, onde íamos, continuamos a conversar.

terça-feira, 24 de março de 2015

A última dança.

We live together in a photograph of time
I look into your eyes
And the seas open up to me
I tell you I love you
And I always will
And I know you can't tell me
I know you can't tell me.


Antony and the Johnsons, numa noite chuvosa de Outubro.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Um, dois,

som.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O último dia.

Acordou com um formigueiro no braço direito, era costume. Pegou nele com a mão esquerda e abanou-o até voltar a sentir. Tenteou no escuro até aos óculos, encontrou o candeeiro, viu as paredes brancas, o espelho, os livros, o cabide. Devia ter arrumado a roupa no armário, era uma vergonha que lhe vissem o quarto assim.

Era difícil escolher. Gostava de ir tomar o pequeno-almoço à praia, as torradas eram de pão saloio tão bom e sempre daria uso decente a um dos sete novos pares de óculos de sol. Mas há aquela questão de sair de casa sem café, nunca funciona, fica-se com aquela sensação de falta de banho o resto do dia. Ligou a máquina de expresso, fez torradas, comeu-as com atenção em frente à TV. How I Met Your Mother. Ok, até podia ser pior.

Fechou a porta com duas voltas de chave. Contou cinco andares de elevador.

O carro fazia-a espirrar, tinha o tablier coberto por uma espessa película de pó. Conduzir e espirrar era um perigo, pensava nisso amiúde. Se fores, digamos, a 100 quilómetros por hora e espirrares e fechares os olhos por, vá, um segundo e meio, percorreste entretanto 42 metros, mais coisa menos coisa. Quantos gatos podes atropelar em 42 metros? Vários gatos. Há gatos por todo o lado.

Estacionar naquela rua era praticamente impossível. Decidiu entrar por baixo, pelo portão do museu. Subiu até ao jardim e seguiu por palpite pela direita. Nunca sabia exactamente como ir dar aos sítios que queria ali, mas acabava por reconhecer um ou outro canto e encontrar os bancos de madeira, quiçá percorrendo sempre caminhos diferentes. O banco estava ligeiramente húmido. O Verão demorava mais a chegar, cada ano que passava. Deviam inventar um nome novo para o aquecimento global, era simplesmente enganador.

Estar ali era bom, tinha sido uma boa escolha. Gostava do rio, da curva que fazia ali, da azáfama lá em baixo e do sossego ali em cima. Raramente se cruzara com alguém naquele lugar. As pessoas passavam mas não se sentavam. Tinha fotografias ali, lembrava-se com nitidez. Era anos mais nova, as árvores estavam mais verdes e levava roupa preta, apesar de o sol parecer quente. Pegou no livro, leu-o até ao fim.

Quando voltou a casa, viu o lusco-fusco pela janela. Lusco. Fusco. Mas que raio, que nome tão estranho. Tinha formigas na calha da janela. Não sabia de onde vinham, mas mesmo que soubesse o que ia fazer? Não ia matá-las agora. Quando sentisse comichão de patas fininhas na pele ficaria até mais descansada, pela probabilidade de serem formigas em vez de aranhas.

Foi ver as fotografias. Eram exactamente como se lembrava. Se calhar lembrava-se até de mais contornos do que aqueles que realmente via.

Era natural que estivesse a começar. Não sabia precisamente qual era o processo, não quis sequer perguntar, mas explicaram-lhe que, de tão avançada que ia, a degeneração das retinas ocorreria ao longo dessa noite e que, quando acordasse, pela manhã, já não seria capaz de ver.

sábado, 1 de dezembro de 2012

As coisas que dantes fazíamos

são tão parvas assim que as deixamos de fazer.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A parte boa do acordo ortográfico

é que pode ser que finalmente se passe a escrever contrato em vez de contracto.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A esta hora

sou só eu e ela. Eu mastigo funebremente as minhas torradas, ela passeia-se, saltitante, enrolada na toalha de banho. Acho que ela vai sentir a minha falta.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Só para comprovar

que uma mulher só volta a escrever quando é deixada.
:')

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ele diz-me coisas que nenhum homem me disse antes

"Vai tu tomar banho primeiro, que és mais rápida."

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Aquela rapariga

que tem um sorriso franco, que joga qualquer desporto, que atende sempre o telefone, que abre as portas de casa, que cozinha bem para todos, que bebe cerveja e vinho tinto, que sabe dar vários nós, que tem sentido de humor e um doutoramento, que sabe de música, que sabe ouvir, que é criativa e faz, que faz a malta feliz.

A mesma rapariga que nunca foi bonita, que nunca gostou de alguém menos do que gostaram dela, que sempre quis mais do que o sentido abraço, que quer tanto filhos e uma casa cheia para cozinhar e fechar as portas.

A rapariga que é tudo o resto e que nunca foi bonita.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Precisa-se de menino preto

para se sentar no meu colo e tirar uma fotografia. O meu perfil na rede está pouco social.

domingo, 10 de junho de 2012

O Primavera Sounds, depois do Primavera Sounds.

Os senhores da Ípsilon e assim são obrigados a deixar os artigos prontos na secretária antes dos concertos acontecerem, a sério. Eu conto como foi realmente o OPS Porto até agora, sem dizer "etéreo" nem "hipster".

Os The Drums queriam ser os The Smiths mas já não dá, já houve uns desses. Suede foi muito bom. As grandes expectativas em relação a Beach House derreteram-se numa coisa assim morna, com o alinhamento mais aborrecidamente criterioso que já se viu. Tanto M83 como Saint Étienne fizeram os camisas-de-flanela mais resistentes abanar o rabiosque, pimba tomem lá. Os Kings of Convenience queixaram-se de que o barulho dos outros palcos não os deixava entrar no mood certo para tocarem as músicas que queriam. Ainda esperámos todos um bocadinho em silêncio que acabasse o outro concerto porque eles pediram (juro, aconteceu, foi confrangedor), mas depois lá tiveram que tocar outras. Foi uma pena, as músicas que eles queriam mesmo tocar eram de certeza as boas. Uma das grandes surpresas foram os XX. Meteram muito medo às pessoas com aqueles olhos arregalados no vazio e a verdade é que resultou, toda a gente escutou com muita atenção e emoção contida. Mentira, alguns choraram, eu vi.

No geral, o Primavera Sounds foi muito fofinho, havia sacolas de pano que se transformavam em toalhas de pequenique e bolsas pequeninas que eram cinzeiros. Estava tudo muito organizado, havia pouquíssimas filas apesar do mar de gente, os concertos foram muito pontuais e o espaço esteve bastante asseado, até porque 70% eram estrangeiros e usavam de facto os contentores do lixo e os cinzeiros. Também havia um wine bar que servia em copos de vidro com pé. Um festival decente, sem dúvida a repetir.

Se a direita tivesse um Avante, podia perfeitamente ser este.